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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A VIDA NUM OLHAR



Na finitude das horas
escrevi o meu destino.
Com a passagem do tempo
a tinta borratou,
o papel enrogou.
Na finitude das horas
imaginei a minha vida.
No encalce do Tempo,
a imaginação secou,
a Vida, simplesmente, terminou.
Fui um poço
e hoje sou mera miragem.
Fotografia de Patrícia de Oliveira

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009




O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.Í
ssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...



  • Álvaro de Campos

  • Javier Parra

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ao longe


Ao longe, onde o sol se une ao céu,
estão as mais ínfimas lembranças que guardo.
São lembranças que escorrem pela alma,
que a banham de um dourado profundo,
que fazem nascer um desejo só meu:
o meu desejo de percorrer a eternidade num segundo,
de encontrar a minha Flôr de Lotus, perdida neste Mundo.


Ao longe, onde a luz queima a escuridão,
estão as mais singelas pétalas do meu ser.
São pétalas que se soltaram da própria Vida,
que disseram adeus aos sonhos que criaram,
que viram a mais perfeita das cores,
a que eu não consegui ver:
a cor da alegria, do amor e da paixão.


Ao longe, onde a vida se mistura com a morte,
estão os mais preciosos vestígios da minha existência.
São vestígios que anunciam a minha perda,
que adivinham o meu doloroso fim,
que clamam a minha irremediável ausência:
ausência deste mundo, ausência do meu corpo,
ausência do teu pensamento, da tua vida,
ausência de um tudo de outrora e que agora jaz morto.
  • Foto de Peter Heilmann